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Muitas escolas e creches já estão retomando as atividades parcialmente, mas o que foi esse 2020, né, mães?

Para as mães que precisam integrar a PEA (população economicamente ativa, ou seja, traduzindo: ganhar dindin) e têm filhos abaixo da idade de enfiar a cara no celular e ficar nele o dia inteirinho, para o bem ou para o mal, esse ano exigiu resiliência!

O mundo gosta das crianças?

Por um lado, vi clientes destacando as “interrupções” das crianças nas reuniões como algo positivo. Fico feliz que alguns tenham conseguido humanizar as mães e pais que ficaram de cuidadores. Bichos de estimação também entraram na lista dos seres amados.

Na hora da interpretação simultânea, se eu não puder recorrer a um hub, entretanto, minha criança e minha pet ficam no apartamento dos meus pais, ou eu vou para o dos meus pais e Catarina e Jasmine ficam em casa. Viva uma rede de apoio que mora no mesmo condomínio, yeah! Afinal, se a interpretação já consome 101% do cérebro, que dirá com filhotes, seja humanos ou felinos, entrando quarto adentro com uma nova exigência ou gracinha — sem chances!

O mundo gosta das mães?

Aí já é outra conversa: às vezes, eu fico me perguntando exatamente como e porquê as mulheres entraram no mercado de trabalho. Sou feminista, claro! Mas fico me perguntando, às vezes, se uma apresentação mais simplista do feminismo, a de uma igualdade a qualquer preço, não foi (ao menos em parte) gerado pelo capitalismo: não a parte dos direitos iguais, mas a parte que fez com que a mulher precisasse, no mínimo, compor a renda da família.

Diferença entre igualdade e equidade.

Minha opinião: o feminismo não pode se resumir à luta pela igualdade!

Pense na sua rede familiar ou de amigos próximos: quantas dessas famílias poderiam prescindir da renda da mulher/mãe *e* manter exatamente o mesmo padrão de vida?

Então pronto, taí o problema: a mulher precisa “jogar nas 11”. Afeto maternal, paciência de professora, coleguinha das brincadeiras — mãe tem que ser divertida! — mas dando limites, sempre, educando, ensinando a dar bom dia pro porteiro e dar beijinho na bisa mesmo que a pele craquelada gere repulsa aos pequeninitos que ainda não engolem conveções sociais com sorvete, levando na consulta com o pediatra e garantindo que as vacinas estão em dia…

MAS sem esquecer das reuniões, sem atrasar os relatórios, sem preencher uma célula sequer errada na planilha mesmo tendo acordado 3x naquela noite. Maquiagem pra teleconferência, unhas feitas porque “senão é desleixo”.

Mulheres e a questão das unhas feitas

Unhas feitas na pandemia? Só se for com muito neon e glitter!

Desculpas, desculpas.

E muitos pedidos de desculpas. Desculpas ao filho porque precisa ir trabalhar, fechar uma porta de casa às crianças que nela moram. Desculpas ao bebê por deixá-lo na creche das 7h às 19h (no antigo normal). Desculpas ao chefe pela célula preenchida errada na planilha ou por ter perdido a reunião devido ao atraso na consulta pediátrica. Desculpas à avó que, gentilmente, ficou com a criança, mas que você prometeu que iria buscar às 17h e só chegou às 20:30 e Deus sabe como. Desculpas para @ espos@ porque você não está dando conta. Desculpas a si mesma, porque não tem como chutar o balde e ir passar um dia na praia, só você e seu livro. Desculpas ao espelho porque você não cabe mais naquele vestidinho arrasador (mas, nisso, você até pode tentar dar a volta por cima treinando em casa: dá um confere nesse blog aqui, que contém algumas traduções minhas!). Desculpas à ginecologista porque o preventivo não tá em dia. Desculpa, me desculpa.

Bem me quer, mal me quer.

Resumindo: eu não sei se o mundo gosta das mães, não. Há relatos que ouço, muitas vezes em cenários profissionais até, em que as profissionais femininas são claramente preteridas por terem filhos, ou por poderem tê-los. Calada fico, mas penso em como a tal língua ferina deve ter sido uma triste filha de chocadeira, ou pior: ter conseguido se alienar da ancestralidade materna a tal ponto que não reconhece na colega de trabalho uma perpetuadora da estrutura de crenças e costumes que mantêm a sociedade que “tanto amamos” funcionando enquanto tal.

Inclusive foi por isso que eu escondi minha gravidez na internet: não queria que deixassem de me chamar para trabalhos de tradução porque eu estava grávida. “Ela pode passar mal”. Gravidez não é doença! Há quadros que envolvem enjoo excessivo ou que necessitam de repouso? Sim. Mas que tal perguntar à gestante como anda a gravidez dela antes de preteri-la para certo trabalho?

Também existe uma lenda urbana muito funcional e cruel, proposta pelo patriarcado, que exige a ‘mulher profissional’ de volta ao mercado no trabalho e focada nas metas após *quatro míseros meses* de licença maternidade. Quis apenas mencionar isso, mas não entrarei por esta vereda porque senão vira um livro, rs. Mais do que já está.

De onde você veio?

Todo mundo é filho. Mesmo que seus pais tenham falecido (meus sentimentos!), você é filho. Você traz as presenças e as ausências deles. Você repete os discurosos deles. Seus gostos e aversões têm raízes na rotina de quem te criou. Em resumo, os adultos de hoje em dia precisam entender que nossas mães poderiam ter tido outras vidas, feito qualquer outra coisa do seu destino… mas foram nossas mães. Ao menos nos gestaram e pariram. Se você, hoje, é um grande CEO, uma enfermeira, médico, advogado, professor, mecânico, o que for — só o és porque alguém se ocupou do bebê vulnerável e “inútil” que você era, cara pálida! Acorda pra vida e deixa as mulheres maternarem em paz e com dinheiro, porque o capitalismo exige! <3

E você, mulher, para onde você vai?

Estamos no fim de 2020. Se você chegou viva aqui, mãe profissional, mãe autônoma, com ou sem rede de apoio, espos@, parceir@, babá… você já veio a algum lugar. Você *já* cruzou uma linha de chegada! Nem que seja ao fundo do poço, mas você veio. Eu sei que o sentimento de insuficiência bate. Mas será que ele bateu também em 2018? 2019? Sim. E baterá em 2021, prometo. É da condição humana. Fomos domesticados ao perfeccionismo. Quem nos quer consumindo não nos quer plenos. Quem nos quer endividados, não nos quer plenos.

Assim, aproveite esse 2020 para se ver. Para ver seus filhos, sua família, colegas de trabalho. Tente não julgar, só ver. Vendo, mesmo que aos tropeços, a gente segue. Às cegas, fechando os olhos por medo ou acreditando em ilusões, se esborrachar é certo.

Bora abrir os olhos, os olhos do coração, se der, e ter a coragem de nos vermos? Força, mundo!