Category: Anglicismos

Eu fui saber da existência do Halloween, celebrado hoje, 31 de outubro, no mundo anglófono, por volta dos 8 anos de idade. Isso era 1992, 1993, não sei bem. Foi o ano em que eu entrei no cursinho de inglês onde estudei até os 16 em um bairro do subúrbio carioca onde nasci, cresci e sempre vivi. Antes dos 8 anos de idade, sequer desconfiava da existência desta data comemorativa.

A fada do dente, então, nem sei quando fui saber que existia.

Pois bem: com 5 anos, minha filha já celebra seu terceiro Halloween na escola e já recebeu SETE visitas da fada do dente. Em breve, virá a oitava. Catarina perdeu inclusive o primeiro dente no banheiro do Madson Square Garden, e a primeira vista da fada do dente foi em dólar!

“Ah, Helena, mas por que você está contando isso no seu blog predominantemente profissional?”

Porque eu sei que minha filha só quer comemorar Halloween e espera a visita da fada do dente por conta dos desenhos animados cujo idioma original, muitas vezes, é o inglês. Em seguida, para que possam ser consumidos por crianças, são traduzidos e dublados segundo acordo com técnicas e regras específicas para o mercado brasileiro.

Claro que desenhos animados não conseguem repassar a experiência completa da imersão cultural. A experiência fica do nosso jeitinho, né? Como João Jacinto Amaral de Jesus cita na introdução de sua dissertação de mestrado defendida ainda em 2007 sobre “A Carnavalização das Comemorações do Halloween”:

Ao estudar o Halloween, apreende-se que celebrá-lo, no Brasil, não é apenas produto de campanhas publicitárias voltadas ao público infantil e adolescente, ou mesmo como tentativa de formar a opinião e introduzir marcas e produtos para a consolidação do consumo. De fato, tais comemorações sofrem o processo denominado carnavalização e ainda manifesta (…) o conceito do multiculturalismo. (p.12)

“Ah, Helena, para de ser implicante, vai! Bota uma roupinha preta, pinta a cara e assume seu lado bruxa!”

Já quero, não se iluda. A questão é que o buraco é bem mais em baixo. Vi recentemente que os adolescentes brasileiros já estão sofrendo de “fomo”. Fiquei de queixo caído, pois sei que infelizmente há muitos lidando com a fome, a subnutrição, carências nutricionais, mas a reportagem destaca a sofrência por FOMO, “Fear Of Missing Out”, que eu traduzirei aqui como “medo de ficar de fora”. Não vou discutir o fenômeno em si, mas já está aí a expressão “fomo” virando parte de nosso dia a dia. Afinal, a matéria está em um dos jornais mais populares do país.

Anglicismos, here we go!

Hoje em dia, já se fala com naturalidade em “pensar fora da caixa” (tradução literal do “think outside the box) para “startar” um projeto. Já se fala em “aplicar” para uma vaga, em vez de candidatar-se, como fizeram nossos pais e como gentilmente solicita a norma culta.

Aliás, os traducionismos no mundo corporativo são muitos, e, sinceramente, eu até entendo: nas multinacionais, principalmente, o inglês está tão presente que, no antigo normal, eu via sim distinção entre “uma call” (reunião virtual) e “uma reunião”. Quando eu contar pra vocês sobre o período em que trabalhei in-house em um projeto de multinacional, tentarei lembrar de contar sobre como a primeira coisa que você se perguntava quando se aproximava de alguém de fone de ouvido era “tá em call”?

E não é só no mundo corporativo. Juro por deus que minha mãe septagenária acabou de me perguntar o que é dar spoiler. Mais dia, menos dia, chega a “Black Friday” (as aspas, aqui, são porque, de desconto, não tem nada, importou-se apenas o nome mesmo). Quem por aí tem um crush? Já stalkeou alguém? Você shippa algum casal? (Confesso que essa tive que perguntar pro meu enteado no início, e acabei de confirmar no Google). Tenho um amigo que arrasa como personal organizer. Já se sentiu perdido dentro de uma Renner da vida ou se remoeu por deixar para comprar os presentes de natal no dia 23 de dezembro e desejou ser rico pra ter um personal shopper? Aliás, qual vai ser seu primeiro look arrasador pra primeira balada pós-Covid?

E o coach? Se o WordPress tivesse aquela enquete do Instagram, eu colocaria: você é contra ou a favor do “coaching”? Coaching é a mesma coisa que mentoria?

Oh, soft power…

Como eu disse, o buraco é bem embaixo. Vamos dar uma faxinada no sótão mental e resgatar palavras como démodé, “haute-couture”, “coiffeur”, baguete, champignon, buquê, abajur, vermelho bordô, réveillon… Nossa amada língua portuguesa tem muitos “francesismos” super-mega-hiper-ultra consolidados.

São consolidados porque são mais antigos. Provavelmente vieram de antes, quando a França era o centro cultural do mundo? Pois é: quando foi realizada a Exposição Universal de 1889, realizada em Paris, fazia apenas 3 anos que Henry Ford criara seu primeiro automóvel, a Estátua da Liberdade tinha 13 aninhos e, provavelmente, ainda era marromEm bom português, quem eram os EUA na fila do pão, em comparação com França e Inglaterra, na época?

Réplica do rosto da Estátua da Liberdade em cobre, ou seja, como era vista na época da inauguração.

Réplica da Estátua da Liberdade em cobre, como era vista originalmente, até 1920, antes da oxidação total + eu turistando porque é meu blog, meu parquinho, minhas regras!

Então, espera: por que nossos novos estrangeirismos vêm do inglês? Por que nosso Brasil quer doces no Halloween tão perto do eterno 27 de setembro, dia de São Cosme e Damião, onde ainda vejo hordas de crianças pelas ruas descobrindo casas onde dão doces? Cada vez menos crianças, sim. E cada vez menos casas, sim. Por causa do neopetencostalismo, do colonialismo, ai, é tanto assunto… que outras pessoas os cubram!

A resposta tá aqui brilhantemente explicada nesta dissertação de Andreza da Silva Galdioli sobre A Cultura Norte-americana como um Instrumento do Soft Power dos Estados Unidos: o caso do Brasil durante a Política da Boa Vizinhança.” Novamente, um trechinho da introdução:

Busca-se nessa pesquisa, por meio de uma análise do conceito de soft power (poder brando) – definido por Joseph Nye como [em citação não literal] “a capacidade de fazer com que os outros queiram os resultados que você espera obter” —verificar, no período que corresponde à Política da Boa Vizinhança dos Estados Unidos para a América Latina, a hipótese de que a americanização do Brasil funcionou como um instrumento do poder brando dos Estados Unidos, contribuindo para a consolidação da hegemonia norteamericana no segundo pós-guerra.

Rumo à homogenização cultural por meio dos desenhos?

Minha filha já veio me perguntar quando teremos um um natal branco (a “white christmas”, com bastante neve, objeto de desejo de muitas famílias americanas) e ficou decepcionadíssima com meu “provavelmente nunca, a menos que estejamos viajando ou nos mudemos do país”. Já repararam que toda a parafernália de natal é repleta de uma neve que, às vezes, nunca vimos nem veremos? Eu só fui saber de white christmas com mais de 20!

Minha filha já sabe que “um láique” (like) é algo desejável. No desenho do Tom Cat, eles falam “hashtag” toda hora, e, nas épocas em que assiste ao desenho, Catarina fica falando “hashtag isso, hashtag aquilo” — claro, tudo errado, já que ela ainda não entende o conceito. Acabei de falar pra ela fazer um “detox” de desenhos animados (agorinha, enquanto escrevia!), e me dei conta de que é outro americanismo que virou corriqueiro.

Oh, well.

Catarina já me perguntou também quando é o Dia de Ação de Graças.

Quantos anos até começarmos a comemorá-lo? Palpites?

Agradecimento: quem tem contatos neste mundo, tem tudo. Valeuzíssimo, Beatriz Polivanov, companheira de semestres deliciosos há mais de uma década no Goethe Institut, pela ajuda com as referências e pela pista para a questão do “soft power” que não tinha me ocorrido e que é WOW!